Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Design e outros Desvarios

A propósito do vestido brilhante de Zac Posen

O assunto do momento é o vestido de Zac Posen que a Claire Danes usou na MET Gala.

O vestido é lindo, sem dúvida, mas sabiam que a ideia de aplicar luz no vestuário vem já de meados de 1880?

 

metgala.jpg

 

 

Naquela altura, o surgimento da luz artificial elétrica era duplamente atrativo para o Teatro: pela segurança apresentada em deterimento dos candeeiros a óleo (que volta e meia provocavam incêndios desastrosos como no Ringtheater de Viena em 1881 ou mesmo o do Teatro Baquet no Porto, em 1888); e pela flexibilidade e possibilidade de contribuir para o impacto visual e expressivo do espetáculo.

 

vestido_eletrico.jpg

 

Apesar de inicialmente a luz artificial ter sido aplicada nos foyers e nos palcos, rápidamente surgiu a ideia de "eletrificar os atores"!!! Ou, melhor dito: as bailarinas! Dentro dos seus vestidos e enrolados sobre os seus cabelos, pequenos aparelhos equipados com lâmpadas incandescentes (era o que havia na época), produziam um efeito que se esperava surpreendente. Consta-se que não foi assim tão bem sucedido, pois provocava encandeamento. 

E cá entre nós: como conseguiriam dançar sabendo que estavam enroladas em fios elétricos (suponho que com deficiente isolamento) e que a qualquer momento poderiam, literalmente, incinerar? 

 

Mas nada temam pela Claire Danes. A fibra óptica emite luz mas não é eletrificada, pelo que é totalmente segura! Suponho que teria entre as saias uma pequenina caixa com uma bateria e uma luz LED de baixa voltagem, pelo que, ainda que algo corresse mal nesse ponto, ela nem sentiria. 

 

Passada esta primeira experiência, a relação da luz com o corpo foi bem explorada pela bailarina americana Loie Fuller que, durante a década de 1890 usou a luz artificial de modo a evidenciar a relação do corpo com a dança, através de projetores coloridos móveis (movéis e manuais, claro está) e do uso de roupas banhadas em pigmentos fosforescentes - dizem que naquela altura foi um escândalo!

 

loie_fuller.jpg

 

Esta experiência correu melhor, tendo o poeta francês Stéphane Mallarmé escrito que a bailarina "alcançou uma fusão ainda desconhecida da imaterialidade da luz e a materialidade do corpo". Esta não apresentava o vestido eletrificado, mas refletia a luz como se o fosse.

 

Cento e trinta e cinco anos depois, mais ano menos ano, estamos de novo maravilhados com um vestido brilhante, com iluminação artificial incorporada (e lindo de morrer). São engraçadas - e interessantes - estas voltas da História.

 

 

A imagem da Claire Danes veio daqui, e as restantes imagens, juntamente com a informação, foram extraídas de um artigo num livro com a seguinte bibliografia: 

Brejzek, T. (2013). Modulating space, Using light in staging and set design. in Dr. Kries, M., Kugler, J. (eds.). Lightopia, Volume 1 (pp. 47-63). Vicenza: Graphicom.

 

2 comentários

Comentar post

MENSAGENS

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

foto do autor